Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S.Paulo
15 Setembro 2017 | 05h00


Valéria do Vale, brasileira beneficiada pelo Daca, o programa que suspende deportação de imigrantes indocumentados levados aos EUA na infância Foto: Valéria do Vale

A brasileira Valéria do Vale tinha 7 anos quando cruzou a fronteira do México com os EUA e se instalou na região de Boston com sua mãe e a irmã mais nova. Em 2014, ela foi aceita no programa que suspende deportações de jovens levados ao país na infância, conhecido pela sigla “Daca” e encerrado pelo presidente Donald Trump há dez dias.

Ontem, o presidente anunciou que está “bem próximo” de um acordo com o Congresso para aprovar uma lei que regulariza a situação dos que receberam o benefício, um universo de 800 mil pessoas, entre as quais 7.361 brasileiros. 

A notícia não deixou Valéria eufórica. Nem otimista. “Essa negociação não inclui minha mãe. Eles não querem incluir nossos pais, que trabalham, pagam impostos e contribuem para esse país”, afirmou. O ex-presidente Barack Obama implantou o Daca por decreto em 2012. Dois anos mais tarde, ele editou outra medida que beneficiava parte dos pais de jovens beneficiados pelo programa, mas ela foi suspensa judicialmente. 

Trump anunciou o fim do Daca e deu prazo de seis meses para o Congresso encontrar uma solução definitiva. Os inscritos no programa puderam obter número de seguro social e permissão para trabalhar legalmente. Valéria, de 19 anos, usou sua nova identificação para se candidatar a vagas em universidades e pleitear bolsas de estudo. Ano passado, foi aceita na Northeastern University, onde estuda sociologia. 

Seu inglês é melhor que seu português. Como muitos indocumentados, Valéria nunca mais voltou a seu país de origem. Pouco antes do anúncio de Trump, ela se preparava para pedir autorização para ir ao Brasil visitar os avós, que estão doentes – essa é uma das poucas situações em que os inscritos no Daca podem sair dos EUA e voltar. Após o fim do programa, ela desistiu da ideia. 

O acordo em torno de uma legislação que regularize a situação desses jovens começou a ser costurado na quarta-feira em um jantar de Trump com os líderes do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer, e na Câmara, Nancy Pelosi. Nenhum republicano participou do encontro.

Trump afirmou que a solução para o Daca está condicionada à aprovação de investimentos “massivos” para a segurança da fronteira. Mas ele concordou em adiar a definição de financiamento para a construção do muro entre EUA e México, uma de suas principais promessas de campanha. “O muro virá mais tarde”, declarou. 

Valéria teme que o preço da aprovação do Daca no Congresso seja o aumento da repressão a imigrantes indocumentados como sua mãe, que saiu com as duas filhas de Jacundá, no Pará, fugindo da violência doméstica.

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